30/03/2020 às 10h22min - Atualizada em 30/03/2020 às 10h22min

O que fazer pelo Brasil?

José Renato Nalini
Uma nação que era a esperança do mundo nas décadas de 70 a 90, converteu-se em objeto de repúdio e pranto. Repudiar a evidência científica em relação às mudanças climáticas, desrespeitar o meio ambiente, queimar florestas, semear desertos, é insanidade e ignorância. Aparentemente, o poder profanou o sacrário ecológico lentamente construído por uma legião de bons brasileiros, a começar por Paulo Nogueira Neto.

O paulista de família tradicional foi um leal amigo da natureza. Titularizou a Primeira Secretaria do Meio Ambiente, gênese do futuro Ministério. Foi formulador da ideia de sustentabilidade no famoso Relatório Bruntland. Criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, hoje tão vilipendiado.
Enxergava longe. Sabia que o Brasil perdera a corrida rumo a uma industrialização de ponta. Décadas perdidas não se recuperam. O mundo avançou, mudou os processos de produção, robotizou-se, utilizou-se da Inteligência Artificial, da nanotecnologia, dos algoritmos, da Internet das coisas. Imergiu profundamente na Quarta Revolução Industrial. Enquanto isso, nosso país ficou estacionado no passado com evidentes retrocessos. Educação insuficiente, descaso em relação à pesquisa, desprezo pela cultura. 

O futuro digno seria a exploração do turismo ecológico. Biodiversidade exuberante, paisagens insólitas, orla litorânea repleta de belíssimas surpresas. Bastaria vontade para tornar esta Nação o destino preferido dos bilhões que deixam euros e dólares em lugares menos sedutores, mas vendidos com qualidade. 
O que era esperança tornou-se tragédia. Incêndios, ordens no sentido do “liberou geral”, implementação de centenas de venenos proibidos em sua origem, desmanche da fiscalização, recusa de auxílio monetário de países civilizados. 

O deboche tem preço. Mas governo é transitório. Cidadania é permanente. O cidadão consciente não está desprovido de condições de fazer a diferença. Em sua casa, com sua família, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade. Fazer como os americanos, que a despeito da insensatez da União, cerra fileiras para respeitar protocolos como o de Kyoto e de Paris. Mostrar às crianças que o maior prejuízo será delas, quando os inconsequentes forem página amarelecida e a ser esquecida na História da Humanidade.
 
Lembrar de Ruy Barbosa, que mostrou a diferença entre plantar couve e carvalho: “Enquanto Deus nos dê um resto de alento, não há que desesperar da sorte do bem. A injustiça pode irritar-se, porque é precária. A verdade não se impacienta, porque é eterna. Quando praticamos uma ação boa, não sabemos se é para hoje ou para quando. O caso é que os seus frutos podem ser tardios, mas são certos. Uns plantam a semente da couve para o prato de amanhã, outros a semente do carvalho para o abrigo ao futuro. Aqueles cavam para si mesmos. Estes lavram para o seu país, para a felicidade dos seus descendentes, para o benefício do gênero humano”.
Vamos semear aquilo que está sendo devorado pelo fogo, pela cobiça, pela ambição e pela falta de patriotismo. Semear jacarandás, jequitibás, aroeiras, caviúnas, para que o verde sorria outra vez e garanta vida. Vida digna, vida saudável, vida feliz para as nossas inocentes crianças, vítimas de ganância e de ignorância. 
 
*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.
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